É fake: não existe grafeno nas vacinas contra a Covid-19

 É fake: não existe grafeno nas vacinas contra a Covid-19

Vídeo sugere que o produto está sendo usado para controlar o cérebro das pessoas

O grafeno, substância composta de átomos de carbono, estaria sendo usado nas vacinas da Covid-19 para controlar as pessoas. A informação está circulando em vídeo pelas mídias sociais. A mensagem foi sugerida à equipe do NUJOC para verificação pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Fundação Oswaldo Cruz.

Com cerca de 16 minutos, o vídeo começa com a descrição de alguns artigos científicos sobre o grafeno. A narradora, que não se identifica, faz um apanhado de expressões que incluem as características do grafeno: ele seria um condutor que teria a capacidade de quebrar a “barreira hematoencefálica” que protege o cérebro, deixando-nos vulneráveis ao controle externo, inclusive por meio do magnetismo. Sobre esse último, a narradora lembra dos vídeos de gente colando celular na marca da vacina, suposta “prova” do magnetismo dos imunizantes.

O grafeno é “uma das formas cristalinas do carbono”, segundo definição da Wikipédia, e “por ser simplesmente o mais fino e mais condutor do mundo, é tido como o futuro da tecnologia”, segundo o site Tech Tudo. Tem grande potencial para a indústria, dadas as suas características, mas não há na literatura científica qualquer referência à suposta capacidade de manipulação pelo composto químico para controlar a atividade humana. O suposto magnetismo das vacinas é uma fraude que já foi desmentida por várias checagens, como esta aqui, feita pelo NUJOC. Confira aqui o verbete da Wikipedia sobre o grafeno.

O vídeo sobre o grafeno: teoria da conspiração travestida de ciência. Imagem: Captura de tela/WhatsApp

Na sequência a narradora aborda matéria do site Stylo Urbano, que afirma ser o grafeno usado nas vacinas contra a Covid-19. Ela admite contudo que o site citado não é confiável: “É um site mais sensacionalista e tal, vou falar a verdade aqui, né”. Mas mesmo assim endossa a dúvida sobre o que está sendo colocado nas vacinas, que ela chama de “picada”.

Mostra também um estudo da universidade de Almería, na Espanha, que mostraria indícios de grafeno na vacina da Pfizer. E provoca: “Pensem comigo: por que que eles querem colocar essa substância dentro de uma picada, sabendo que essa substância vai conseguir quebrar a barreira que protege o seu cérebro de substâncias tóxicas e nocivas? O que que eles querem colocar dentro do seu cérebro?”.

A afirmação de que as vacinas contra a Covid-19 contêm a substância grafeno, que seria utilizada para manipular a vontade da população, carece de qualquer evidência científica. Mensagens semelhantes afirmaram que haveria “chips líquidos” nas vacinas, encarregados de controlar a vontade das pessoas, como você pode conferir nesta checagem feita pelo G1.

Representação do grafeno: não, ele não vai controlar o seu cérebro. Imagem: Wikipédia

Todos os especialistas ouvidos pelo G1 são unânimes em afirmar que não há qualquer fundamento na afirmação de que as vacinas são usadas para controlar os humanos por meio de chips líquidos e inteligência artificial, pois nem sequer existem os tais chips líquidos. O mesmo se aplica à fake news sobre o grafeno, que é na verdade uma variante da fake news sobre os chips líquidos. A forma pode variar, mas a ideia é a mesma: estão injetando algo em nosso corpo com o objetivo de nos controlar. A vacina é só uma desculpa para isso.

Nesta outra checagem aqui, feita pelo site boatos.org, é feita a verificação sobre os supostos estudos que teriam descoberto grafeno nas vacinas. O site mostra que na verdade a pesquisa mencionada pela narradora era falsa e que não existe o mínimo fundamento para a ideia, classificada como “baboseira”.

Paranoia com método – O vídeo sobre o grafeno apresenta uma roupagem que o faz supostamente uma investigação científica. Ao mostrar os artigos de revistas especializadas, a autora busca emprestar credibilidade a sua teoria, que soa como mais uma teoria da conspiração.

Mas a narradora incorre no chamado “viés de confirmação”: ela detecta nos textos palavras chaves que supostamente indicariam a manipulação por trás da vacina, como “nanocompostos”, “biossensores”, “grande condutor”, “magnetismo” e “barreira hematoencefálica”, mas que de fato apenas confirmam de antemão as suspeitas que ela quer provar. A ciência funciona de outra forma: os fatos vêm primeiro, depois as explicações.

Em que pese esse viés equivocado, os comentários da narradora sugerem que a fake news sobre o grafeno parece ter sido motivada pelo legítimo desejo de descobrir algo e de contribuir para o debate público. “Pensem aí, pessoal, liguem os fatos, tá. Porque na minha opinião a coisa fede muito mais do que parece”, adverte ela ao final. Os pesquisadores sobre fake news reconhecem que é preciso levar em conta essa motivação, que pode ser um desejo legítimo de contribuir para o conhecimento da realidade.

Netflix tem hora – Teorias da conspiração são ótimas como argumento de séries da Netflix e filmes de ficção científica, mas são perigosas quando levadas a sério na vida real. Elas podem conduzir milhões de pessoas a agir de forma irracional diante de catástrofes sanitárias, por exemplo.

O caminho da ciência é longo e cheio de percalços. As redes sociais digitais trouxeram a ilusão de que é possível ser um cientista sem ter passado pelas provas da ciência institucionalizada, que incluem anos de estudos, experiências em laboratório e a avaliação constante dos pares cientistas.

O método construído pelo vídeo que apresenta a teoria conspiratória do grafeno nas vacinas é mais um exemplo de fake news que busca legitimidade na própria ciência sem respeitar o método científico: seleciona apenas os indícios que confirmam sua tese, ignora os fatos em contrário e a opinião dos especialistas sobre o assunto. O resultado concreto disso é lançar dúvida sobre a eficácia das vacinas. Mas os fatos mostram que elas são eficazes e já estão ajudando a diminuir as mortes no Brasil e no mundo. Esta matéria do UOL confirma o êxito das vacinas contra a Covid-19 em salvar vidas.

O NUJOC já fez outras checagens sobre teorias conspiratórias. Entre elas, a de que as vespas mandarinas foram criadas em laboratório pela China, que você pode ler aqui. Nesta outra matéria aqui, a teoria de que o STF autorizou “campos de concentração” para quem se recusar a tomar vacina. Todas falsas e delirantes.

Equipe NUJOC