Médica pede vídeos de apoio ao tratamento precoce

 Médica pede vídeos de apoio ao tratamento precoce

Defensora do tratamento, Raissa Soares pede que seguidores gravem vídeos para pressionar o Ministério Público em defesa do método ineficaz

A médica Raissa Soares, que atua na cidade de Porto Seguro (BA), conclamou seus seguidores em rede social a produzirem vídeos curtos com depoimentos atestando a eficácia do tratamento precoce. A intenção, segundo ela, é impedir que o Ministério Público proíba a prática do tratamento. O vídeo com o pedido da médica, que circula pelo Instagram, foi enviado à equipe do NUJOC para checagem pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Fundação Oswaldo Cruz.

Raissa começa sua mensagem pedindo aos seguidores que façam vídeos sobre o suposto sucesso com o tratamento precoce: “Pessoal do Brasil, olha só esse recado importante. Nós precisamos que você, que teve Covid, que fez tratamento pra Covid até os três, quatro primeiros dias da doença e que foi recuperado, que tá aí com sua família, que se recuperou, que melhorou: grave um pequeno vídeo, pequeno vídeo. Dá seu nome, de onde você tá falando, que cidade que é, deixa o seu contato, e deixa o número do celular no, falado no vídeo, e você diga: ‘Olha, eu tive doença em tal época, eu fiz o tratamento, eu me recuperei’ ou ‘precisei me internar’, ou não”.

O pedido da médica e suas declarações no vídeo levam a entender que o tratamento precoce funciona para combater a infecção causada pelo novo coronavírus.

Não há prova de eficácia do tratamento precoce, que consiste em administrar medicamentos como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina para os pacientes infectados ou com suspeita de infecção pela Covid-19. Já foram efetuados diversos testes com esses medicamentos, conforme você pode conferir nestas matérias aqui e aqui. Nenhum dos testes mostrou eficácia, e o tratamento não é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde nem pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa.

Apesar da ineficácia, o tratamento precoce tem defensores na área médica. O grupo Médicos pela Vida, do qual Raissa Soares faz parte, é um dos principais defensores do tratamento. Esses profissionais da medicina alegam que tiveram resultados positivos em sua experiência clínica. Todavia, os cientistas apontam que isso não basta para atestar a eficácia do tratamento, já que essa precisa de provas robustas em estudos aplicados em larga escala. Nenhum desses estudos confirmou até agora a eficácia do tratamento precoce.

CPI – Atualmente ainda correm no Senado os trabalhos de Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a pandemia da Covid-19. A CPI da Covid está investigando suspeitas de que a operadora de planos de saúde Prevent Senior teria fraudado atestados de óbito de pessoas que morreram de Covid-19, ocultando de seus prontuários que elas foram submetidas ao tratamento precoce. “Um dossiê assinado por 15 médicos da Prevent Senior e encaminhado à CPI afirma que prontuários médicos da operadora foram fraudados para esconder as causas da morte de diversos pacientes e para ocultar qual tratamento eles receberam”, relata esta matéria do jornal Folha de S.Paulo, de quarta-feira, 22.

Regina Hang, mãe do empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan e fervoroso apoiador do presidente Bolsonaro e do tratamento precoce, é uma das vítimas cuja causa mortis teria sido fraudada. Ela teria sido submetida ao tratamento precoce, mas esta informação não consta de seu prontuário. O senador Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, afirma ter provas de que Luciano Hang não apenas sabia do tratamento com o kit covid como também teria pedido aos médicos para não divulgarem essa informação no laudo da morte. Em nota, Hang nega as acusações.

Médica Raissa Soares: conclamando os seguidores em rede social pela defesa do tratamento precoce. Imagem: Captura de tela/Instagram

O vídeo da médica Raissa Soares pedindo depoimentos em favor do tratamento vem num contexto em que se fala na responsabilização dos profissionais da saúde que orientaram seus pacientes a aderir ao tratamento. A médica menciona ainda a suposta pressão do Ministério Público sobre a classe médica: “Nós vamos mostrar pra todo mundo que ainda não sabe ou não acredita que o protocolo da Covid-19 tem fundamento, tem resultado. Ele é capaz de mudar vidas. Nós vamos impedir que o Ministério Público nos bloqueia a tratar, nós vamos impedir que queiram criminalizar médicos que tão tratando”.

A afirmação da médica sobre a atuação do MP não tem fundamento nos fatos. O Ministério Público é um órgão independente, encarregado de vigiar as instituições, garantindo seu bom funcionamento e denunciando as práticas irregulares e prejudiciais à sociedade. Se há pressão do MP sobre os médicos nesse caso, ela se justifica pelos indícios que ligam o tratamento precoce à morte e à piora na situação dos que se submeteram ao tratamento. Como não há comprovação da eficácia do tratamento precoce, recomendá-lo se torna uma prática potencialmente prejudicial e, no limite, criminosa. Daí a necessidade de o MP agir.

O NUJOC já checou mensagens de outros médicos que defendem o tratamento precoce e disseminam desinformação sobre a Covid-19. Nesta checagem aqui, de 16 de março deste ano, um médico ensina e fazer nebulização com água oxigenada e bicarbonato de sódio contra Covid-19. Nesta outra, do dia 29 de abril, uma médica norte-americana disse que 30% dos pacientes contra a Covid-19 iriam morrer em poucos meses. São todas informações falsas.

Equipe NUJOC