O buriti é um novo aliado no combate ao coronavirus?

 O buriti é um novo aliado no combate ao coronavirus?

Sim, é verdade. Mais os estudos estão em fase inicial.

No mundo inteiro, notícias de receitas milagrosas prometendo a cura para a Covid-19 ganham as redes sociais e acabam por colocar em risco a vida de muitas pessoas. As receitas são das mais variadas possíveis, desde limão com bicarbonato até o tradicional chá de boldo tão estimados por grande parte da população.

Porém no Piauí, um estudo envolvendo uma típica fruta da região ganhou destaque esta semana, envolvendo uma publicação na renomada revista científica ​Journal of Biomolecular Structure & Dynamics.

É o buriti. Conhecido em todo o Estado e que faz parte da dieta do piauiense e que se mostrou, segundo estudos, um forte aliado no combate ao novo coronavírus.

Em entrevista, o Prof. Dr. Francisco das Chagas Alves Lima da Universidade Estadual do Piauí, conta como foram iniciados os estudos com a fruta e o que podemos esperar a partir dos resultados obtidos na primeira fase da pesquisa.

Como foram realizados os estudos?

Os estudos surgiram a partir do vasto conhecimento produzido acerca dos benefícios do buriti e de sua vasta aplicabilidade em diversas situações, como para uso de repelente, forte poder de cicatrização e até como fator de diminuição do veneno das cobras.

A partir destes indicativos, Allan Nunes Costa, orientando de doutorado do Professor Francisco das Chagas Alves Lima, resolveu estudar os constituintes químicos obtidos por meio do óleo de buriti.

O estudo foi realizado na primeira fase​, in sílico, ou seja, numa modalidade de estudo que visa analisar um sistema biológico baseado em simulação computacional com a finalidade de conseguir orientações para as próximas fases da pesquisa.

Neste primeiro momento, verificou-se quais eram os componentes majoritários do óleo do buriti. Foram determinadas as interações de nove moléculas presentes no óleo extraído do buriti em relação ao principal elemento do sistema enzimático do SARS-Cov2, o Complexo 2GTB-Peptidase.

De nove moléculas pesquisadas, três (13-cis-caroteno, 9-cis -caroteno e caroteno) apresentaram energias de ativação elevadas que podem reagir com o complexo enzimático do vírus, inibindo a enzima 2BTB-peptase, que possui 96% de similaridade com o SARS-Cov-2.

É importante ressaltar que estes componentes estudados ​não foram estudos no intuito de uma produção de uma vacina​, mas sim de um fármaco alternativo capaz de inibir a enzima. A ​equipe​ ​que realizou os testes é formada pelo Grupo de Química Quântica Computacional e Planejamento de Fármacos da UESPI, liderado pelo Prof. Dr. Francisco das Chagas Alves Lima, pesquisador que atua como professor de Química da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e orienta no Programa de Pós-Graduação em Química da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

O artigo com os resultados foi escrito pelo doutorando Allan Nunes Costa que é Professor do Instituto Federal do Pará (IFPA), como parte de sua pesquisa de doutorado, em parceria com os pesquisadores Ézio Sá (IFPI), Roosevelt Bezerra (IFPI) e Janilson Souza (IFMA), do mesmo grupo.

Quais são as próximas etapas a serem realizadas pelo grupo?

O Professor explica que as etapas da pesquisa são divididas em três fases de estudo: ​in sílico, in vitro e ​in vivo.

E que em virtude da escassez de recursos, a equipe tenta montar um laboratório adequado de acordo com a infraestrutura requerida para trabalhar estas moléculas ​in vitro, que caracteriza a segunda fase da pesquisa, onde os testes são realizados em células isoladas e contaminadas pelo novo coronavirus, para em seguida aplicar as moléculas individualmente em cada tecido, e somente depois, verificar quais das moléculas testadas tem efeito inibidor sobre a célula infectada.

A terceira fase.

Devido a inexistência de um laboratório com tais condições, os pesquisadores buscam parcerias com equipes da área de farmácia, objetivando finalizar as etapas da segunda fase e possibilitar que a execução da terceira etapa, ​in vivo, seja realizada por intermédio de testes em animais, geralmente em camundongos, onde estes são contaminados com a célula infectada e tratados com as moléculas em estudo para avaliar os efeitos no organismo das cobaias.

A partir daí, avalia-se os órgãos e tecidos destes animais, como coração, baço e fígado para constatar se houveram ou não efeitos colaterais nestes indivíduos, e, caso os resultados sejam positivos, os pesquisadores recebem sinal verde para prosseguir com os protocolos referentes à produção de fármacos, a serem distribuídos, a posteriori.

Dificuldades de continuar as pesquisas.

O Prof. Dr. Francisco das Chagas Alves Lima nos informa que trabalhar com o vírus requer uma estrutura laboratorial adequada e com condições particulares para que se possa operar testes e pesquisas dessa magnitude, o que infelizmente no Piauí se mostra inviável atualmente. Na maioria das vezes o que ocorre é que os pesquisadores precisam se deslocar para outros estudos a fim de realizar seus estudos.

Na parceria com um grupo de farmácia da região, os estudiosos buscam conseguir aporte financeiro por meio de edital lançado pelo governo federal, tendo como um dos objetivos a construção de um laboratório desse porte aqui no Piauí.

Outra queixa é sobre a necessidade de maiores investimentos por parte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí. Existem recursos destinados à pesquisa, porém os valores são irrisórios para uma investigação científica dessa amplitude.

O Professor Francisco Alves ressalta que apesar da crise econômica que enfrentamos é necessário, em tempos de pandemia, que a ciência e a tecnologia sejam abastecidas com recursos, visto que só assim os avanços podem ser significativos na descoberta de soluções alternativas que possam mitigar os efeitos negativos causados pelo novo coronavirus.

Expectativas

A maior expectativa para o momento é que as próximas etapas, ​in vitro e ​in vivo possam ser realizadas para dar segmento à pesquisa. O Professor Doutor Francisco Alves ainda nos lembra que, ter realizado pesquisas prévias ​in sílico, é de suma importância, pois a partir dessa etapa pode-se reduzir em até 40% o número de animais utilizados em testes, bastante relevante para uma ciência mais humanizada e em defesa dos animais.

A continuidade da pesquisa ​in vitro é de suma importância para o Piauí, pois enriquece o potencial científico da região e do nordeste, uma vez que se trata de estudos realizados a partir da flora local e que agora, com a publicação do artigo, passa a ganhar o mundo como mais uma alternativa a ser estudada no combate da pandemia ocasionada pelo novo coronavirus.

Em caso de sucesso no investimento científico a cadeia produtiva que envolve o buriti também será favorecida economicamente, uma vez que tal iniciativa agrega valor a matéria prima deste produto típico de nossa região. O professor finaliza dizendo que acredita que possam continuar com as pesquisas.

E que todo país só se desenvolve positivamente apostando em educação, ciência e tecnologia. Com tudo isso em harmonia, podemos ter uma maior valorização de nossa própria cultura e do desenvolvimento da ciência em nosso Estado.

O artigo mencionado foi aceito para publicação no ​Journal of Biomolecular Structure & Dynamics e estará disponível para consulta online a partir da próxima sexta-feira, 12/06.

Equipe NUJOC

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