Pediatra diz que se curou da Covid tomando coquetel com cloroquina

 Pediatra diz que se curou da Covid tomando coquetel com cloroquina

A declaração foi feita em entrevista para a Rede Record há mais de um ano. Afirmação não procede

O médico pediatra Carlos Alexandre Ayoub afirmou em entrevista às mídias sociais da Rede Record que se recuperou da Covid-19 tomando coquetel de medicamentos, entre eles a cloroquina. A entrevista está circulando novamente nas mídias sociais, mas foi feita originalmente há cerca de um ano, ainda na fase inicial da pandemia. O material foi enviado à equipe do NUJOC para checagem pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Fiocruz.

O médico diz ter sentido os primeiros sintomas em 13 de março do ano passado, quando tinha 72 anos de idade. Diabético e hipertenso, ele relata que foi internado por 12 dias no hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde foi submetido a um protocolo que incluía cloroquina e outros medicamentos, como anticoagulantes. Em sua fala, ela dá a entender que se curou pelo tratamento precoce.

É falsa a relação que o médico estabelece entre sua recuperação e o tratamento precoce. Isso porque não há até o momento tratamento eficaz para a Covid-19. A cloroquina, um dos medicamentos do chamado tratamento precoce, não tem eficácia comprovada para combater o novo coronavírus, conforme você pode conferir nestas checagens aqui. Ao estabelecer a ligação entre sua recuperação e o tratamento precoce, o médico está disseminando informação incorreta.

Médico Carlos Ayoub em live sobre sua experiência com a Covid-19: informações não procedem. Imagem: Captura de tela/Youtube

Anacrônico – A entrevista veiculada pela Record nas mídias sociais, comandada pela jornalista Janine Borba, já foi superada pelos fatos. A vacinação em massa tem se mostrado eficaz desde seu início, no início deste ano, e hoje a pandemia dá sinais de que está sendo controlada, depois de meses com números diários de mortes pela Covid-19 acima do milhar. Mas cuidados preventivos como usar máscaras e evitar aglomerações continuam valendo mesmo nesse cenário de queda no número de mortes e nas taxas de transmissão do vírus.

Enquanto isso, corre ainda no Senado uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a pandemia, com o intuito de investigar as responsabilidades dos que contribuíram para o agravamento da crise sanitária no Brasil, entre eles e principalmente aqueles que disseminaram informações falsas sobre tratamento precoce.

Em sua fala, Ayoub também afirma que não transmite mais o coronavírus porque já teve a doença: “Eu tive corona, meu IGG [anticorpo] deu positivo. Eu vou no supermercado fazer as compras, eu que saio, eu não preciso usar máscara. Por quê? Porque eu não pego mais, eu tô vacinado contra o corona”.

A declaração não procede. Quem já foi infectado pode se infectar novamente, assim como pode passar o vírus para outras pessoas. Naquele momento da pandemia ainda pairavam dúvidas sobre algumas dessas questões, mas à medida que o conhecimento sobre o novo coronavírus foi se firmando elas passaram a ter outra abordagem, que recomenda o cuidado mesmo para os que já foram vacinados.

Declarações antigas e fora de contexto têm sido utilizadas por quem dissemina desinformação, daí a importância de checar a data de publicação das notícias que circulam pelas mídias sociais. Manuais e guias de orientação para detectar fake news destacam esse cuidado com as datas, pois muita desinformação vem sendo “requentada” desde o início da pandemia, e volta a circular nas redes sociais depois de um tempo, como é o caso da entrevista com o médico Carlos Ayoub. Confira dicas para não cair em desinformação neste manual aqui.

Médicos – Destacar as declarações de médicos costuma ser outro recurso dos disseminadores de desinformação, que se amparam na suposta autoridade dos profissionais da medicina para tentar convencer a audiência sobre tratamentos e curas que a medicina não reconhece. Isso gera confusão e ajuda a disseminar desinformação.

A classe médica, como já apontamos em outras checagens, é também fonte de muita desinformação sobre a Covid-19. A Associação de Médicos pela Vida é um exemplo dessa postura anticientífica. Em sua pauta, está a defesa do tratamento precoce, em nome da autonomia médica – e contra todas as evidências científicas. Confira aqui.

O NUJOC já apurou diversas outras mensagens sobre os supostos benefícios da cloroquina e do tratamento precoce. Nenhuma dessas mensagens era verdadeira, como você pode conferir aqui.

Equipe NUJOC