QUEM LUCRA COM O MOVIMENTO ANTIVACINA?

 QUEM LUCRA COM O MOVIMENTO ANTIVACINA?

Por Ana Regina Rêgo

O Center for Countering Digital Hate (Centro de Combate ao ódio digital) dos Estados Unidos divulgou recentemente uma pesquisa sobre o que denominam de indústria da desinformação que tem como foco o movimento antivacina. Indústria que tem se tornado cada vez mais lucrativa para quem investe nesse tipo de fake News e trabalha em perfis e páginas nas plataformas digitais. 

De acordo com o CCDH a indústria da desinformação focada nas narrativas antivacinas, viu na pandemia da Covid-19, uma grande oportunidade para tornar-se mais e mais lucrativa, para tanto, potencializou a produção de diversas modalidades de narrativas (vídeos, áudios, matérias escritas) direcionadas à diversos públicos, em que procuram explorar falsas curas com medicamentos aleatórios ou remédios caseiros e promover mentiras sobre os efeitos das vacinas.

Para o CCDH, a confiança dos que investem abertamente em promover mentiras vem de anos de impunidade e de uma expertise  de trabalho com as plataformas mais populares de mídia social, direcionando tráfego e dólares de publicidade para o Facebook, Instagram, Twitter e YouTube, enquanto se beneficiam do enorme alcance que as plataformas de bom grado oferecem  a eles. Como podemos ler no documento, “ É um acordo mutuamente lucrativo – pelos nossos cálculos, valorizar o público antivacina, agora com mais de 62 milhões de seguidores, deve gerar cerca de até US $ 1,1 bilhão em receita anual para as Big Tech. A própria indústria antivacina como detalhado neste relatório, ostenta receitas anuais de pelo menos US $ 36 milhões”.

De acordo com o relatório do estudo, denominado de Quem lucra com a pandemia: o negócio do movimento antivacina”, em uma conferência realizada em outubro de 2020, os antivaxxers se reuniram para planejar seus impulsos estratégicos. Eles decidiram minimizar os perigos da Covid (uma doença que, apesar do bloqueio e medidas preventivas massivas mataram mais de 4,5 milhões de pessoas em todo o mundo até o presente momento), para subverter os especialistas em saúde (os que estão no melhor lugar para mitigar a crise) e impedir a vacina de todas as maneiras que pudessem, principalmente, amplificando quaisquer possíveis dúvidas e efeitos colaterais sobre os imunizantes que estavam sendo desenvolvidos e que hoje estão no mercado.

O documento informa que a indústria é antiga e a remonta à época de Andrew Wakefield que no final da década de 1990 publicou um artigo fraudulento intitulado MMR vaccination and autism  na revista científica de grande reputação a The Lancet,  no artigo  Wakefield estabelecia uma suposta relação entre a vacina tríplice viral e o autismo. Posteriormente, diversas pesquisas foram realizadas e chegou-se ao diagnóstico de que não havia nenhuma relação e que as condutas de Wakefield foram completamente antiéticas, logo em seguida, após mais de dez anos da tese fraudulenta o Conselho de Medicina do Reino Unido cassou sua licença médica, tendo em vista as acusações de fraudes de evidências em suas pesquisas.

Todavia, o mal já havia sido plantado e segundo o CCDH, suas ideias encontraram um porto seguro no Vale do Silício, com sua crença no lucro e na liberdade de expressão irrestrita, além de uma mistura hiper capitalista de libertarianismo com  o evangelho da prosperidade. “Seus protegidos diretos e aqueles em que ele se inspirou agora somam dezenas, com os doze mais perigosos – a quem apelidamos de Dúzia da Desinformação em um relatório anterior – criando dois terços de todos os compartilhamentos de desinformação nas redes sociais nesta pandemia”.

No relatório, o CCDH expõe a rede de empresas, organizações sem fins lucrativos, ações políticas, comitês, esquemas de afiliação e impérios de marketing de mídia social que formam a Indústria AntiVaxx. Enquanto as pequenas empresas lutavam contra a pandemia, as empresas que compõe o mercado da desinformação antivacina, obtiveram pelo menos US $ 1,5 milhão em empréstimos do governo dos EUA. Para além disso, o CCDH analisa no documento, como os antivaxxers financiam sua luta contra a ciência e como eles mudaram especificamente suas estratégias para lucrar durante a pandemia.

Dentre as principais questões apontadas no relatório, vale ressaltar a identificação dos doze líderes do movimento antivacina que gerenciam negócios e organizações com receitas significativas. Esses doze são responsáveis ​​por até 70 por cento do conteúdo antivacinas compartilhado com o Facebook. Três desses doze poderosos, a saber:  – Joseph Mercola, Del Bigtree e Robert F. Kennedy Jr. – são tão influentes que respondem por quase metade desse conteúdo. Alguns líderes deste movimento nos EUA estão ganhando salários de seis dígitos por cargos de liderança em organizações sem fins lucrativos com foco antivacina, incluindo Robert F. Kennedy Jr., que ganha $ 255.000 por ano como Presidente da Defesa da Saúde da Criança.

As organizações antivacinas representam uma indústria com receitas anuais de pelo menos US $ 36 milhões de dólares nos Estados Unidos. A CCDH chegou a esse número com base em uma visão limitada de suas finanças, com base em registros autorrelatados publicamente e estimativas de receitas disponíveis para 22 organizações pertencentes aos doze maiores líderes da indústria. Esta indústria antivacina emprega pelo menos 266 pessoas.

Antivaxxers líderes estão colaborando para comercializar a desinformação uns dos outros e para impulsionar as vendas. Líderes antivacinas, incluindo Robert F. Kennedy Jr., participaram de um esquema popular de marketing de afiliados estabelecido por empresários antivacinas como Ty e Charlene Bollinger, que afirma ter pago cerca de US $ 14 milhões de doláres a parceiros que promoveram sua desinformação sobre saúde.

As Organizações antivacinas nos EUA, lideradas por Robert F. Kennedy Jr., Del Bigtree e Larry Cook admitiram privadamente em processos judiciais que dependem das principais mídias sociais/plataformas para  alcance de público e geração de receita. Os mesmos registros legais revelam que as plataformas não acreditam que violam as proteções de liberdade de expressão, com o Facebook e o YouTube declarando que eles são “partes privadas, não atores estatais. E de acordo com a lei estabelecida, sua moderação de conteúdo e suas decisões não estão sujeitas às restrições da Primeira Emenda” da Constituição daquele país.

No Brasil, o movimento antivacina tem feito estragos e levado muitas pessoas à morte neste momento de pandemia da Covid-19, visto que se alia à inúmeros movimentos e outras narrativas fraudulentas que procuram descredibilizar medidas de distanciamento social e uso contínuo de máscaras em locais públicos.

No momento em que escrevo este artigo, já ultrapassamos os 580 mil mortos pelo novo coronavírus e, muito embora, o país avance lentamente na vacinação ainda temos milhões de brasileiros não vacinados ou somente com a primeira dose, o que transforma nossa sociedade em um celeiro para desenvolvimento de novas cepas do vírus que se tornam mais e mais poderosas.

Para conhecer o Center for Countering Digital Hate– CCDH acesse: https://www.counterhate.com/

Equipe NUJOC