Vídeo com síntese de declarações de Bolsonaro contra a vacinação é verdadeiro

 Vídeo com síntese de declarações de Bolsonaro contra a vacinação é verdadeiro

O material reúne afirmações feitas em diversos momentos da pandemia, intercaladas com comentários de políticos, ex-ministros e microbióloga

Está circulando pelas redes sociais um vídeo com um apanhado de declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), contra a vacinação. Com cerca de três minutos de duração, o vídeo intercala as declarações do presidente com as de ex-ministros, políticos e especialistas da área da saúde. O material chegou à equipe do NUJOC Checagem pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Fundação Oswaldo Cruz.

 Trata-se de um apanhado feito pelo portal UOL, que traz declarações pontuais sobre a vacina feitas pelo presidente, e os comentários do falecido senador Major Olímpio (PSL-SP), do ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta e da microbiologista Natalia Pasternak sobre a postura do governo diante da pandemia. No final do vídeo, também há declarações do ex-ministro Eduardo Pazuello, nas quais afirma nunca ter indicado tratamento contra a Covid-19 e também que o Ministério da Saúde não tem nada a ver com compra de oxigênio. Todas as declarações foram feitas de fato pelas pessoas que aparecem no vídeo.

As declarações do presidente Jair Bolsonaro e de seu ex-ministro Eduardo Pazuello foram feitas por eles em diferentes momentos da crise sanitária da Covid-19, conforme está registrado na mensagem, que traz as datas de algumas delas. Bolsonaro disse em uma das lives que transmitiu: “Procura outro para pagar tua vacina”. Em uma entrevista à televisão, afirma que “a pressa da vacina não se justifica”. Em mais outra, diz: “Toda e qualquer vacina será descartada”. O presidente também esbraveja contra quem diz para ele tomar vacina: “Só se for na casa da tua mãe!”. “Ou o cara é mal-intencionado, mau-caráter, né, ou é um imbecil”, diz Bolsonaro sobre quem pergunta pela vacina.

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da saúde e atual desafeto do presidente, por seu lado, acusa o presidente de ter negligenciado a oferta da vacina da Pfizer: “Ele sentado com a oferta em cima da mesa dele… Quanto que custa cada dia de atraso da vacina?”. Mandetta afirma que o presidente ignorou as ofertas da Pfizer e só concordou em participar do consórcio Covax Facility com a participação mínima, de 10%, de um total que poderia chegar a 50% das necessidades de vacina. “O Brasil politicamente entrou na última hora: ‘Falei, então me dá 10% só para falar que eu tô participando’”, afirma Mandetta.

O senador Major Olímpio, que faleceu em decorrência da Covid-19 em março deste ano, acusa o governo de conduta criminosa, em declaração feita em discurso no Senado: “Negacionismo criminoso de presidente da República, de ministro da saúde inescrupuloso, que fiz questão de representar junto com o partido Cidadania, e vai ser condenado, que é criminoso por ação e por omissão”.

A microbióloga Natalia Pasternak, em comentário no Jornal da Cultura, ironiza a declaração de Bolsonaro de que estaria sentado em cima de um cheque de 20 bilhões para despesas com a pandemia: “Retire o seu traseiro de cima do nosso dinheiro e use pra comprar vacinas”.

Bolsonaro, Olímpio, Mandetta, Pasternak e Pazuello: palavras sobre a pandemia. Imagem: montagem sobre captura de tela/WhatsApp

O vídeo encerra com declarações do ex-ministro Eduardo Pazuello feitas à imprensa sobre a postura do governo e do Ministério da Saúde na pandemia. Ele afirma que nunca o Ministério da Saúde promoveu medicamentos para o combate à Covid-19, e que não é responsável pela compra de oxigênio. “Nunca indiquei medicamentos a ninguém”, diz ele. “Nunca autorizei o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos”, continua. Em outra ocasião, ele questionou: “O que o Ministério da Saúde tem a ver com produção, transporte, distribuição e logística de oxigênio?”.

Reescrevendo o passado – Com o auge da pandemia no país e uma CPI em andamento no Congresso, o Brasil tem assistido nos últimos meses a várias tentativas de reescrever o passado recente. O presidente, seus ministros e apoiadores têm feito manobras para apagar ou distanciar-se de afirmações que podem resultar em alguma forma de responsabilização diante do número calamitoso de mortos no Brasil em decorrência da pandemia. Recentemente, por exemplo, a jornalista Lega Nagle fez limpa no seu canal do Youtube, apagando vídeos em defesa do “kit Covid”, conforme mostra esta matéria da Folha de S.Paulo.

As declarações de Bolsonaro e Pazuello foram feitas de fato ao longo de 2020 e nos primeiros meses de 2021, assim como as declarações críticas das demais pessoas que aparecem no vídeo enviado para checagem. Diversas checagens foram feitas para contradizer as declarações do governo, como esta aqui, do UOL, que desmente Pazuello sobre nunca ter indicado tratamento precoce. Outras notícias e checagens de vários veículos de imprensa e agências de verificação mostram reincidência do governo em negar a pandemia e tentativas de apagar ou reescrever o passado.

Equipe NUJOC