Da credibilidade informativa às fake News

 Da credibilidade informativa às fake News

Por Ana Regina Rêgo

Este tema me foi proposto para a mesa de abertura do I Simpósio Ibero-Americano de Comunicação em contexto de mudança realizado pela ASSIBERCOM e Universidade do Porto no início de novembro, de cuja fala trago  alguns trechos selecionados e assim como na conferência,  eu escolhi aqui também, para iniciar,  um caminho arriscado e controverso que tem como guia o ensaio da Hannah Arendt, Verdade e Política contido no livro Entre o passado e o futuro, ciente dos riscos limitadores de tal orientação, mas que me parece cabível no cenário em que estamos vivenciando o fenômeno social da desinformação.

E começo citando Hannah Arendt que nos traz provocações sobre as quais gostaria de me debruçar, “ […] o que é talvez perturbador, se as mentiras políticas modernas são tão grandes que requerem um rearranjo completo de toda a trama factual, a criação de outra realidade, por assim dizer, na qual elas se encaixem sem remendos, falhas ou rachaduras, exatamente como os fatos se encaixavam em seu próprio contexto original, o que impede essas novas histórias, imagens e pseudofatos de se tornarem um substituto adequado para a realidade e factualidade?  Para a filósofa, “a  marca distintiva da verdade factual consiste em que seu contrário não é o erro, nem a ilusão, nem a opinião, nenhum dos quais se reflete sobre a veracidade pessoal e sim a falsidade deliberada, a mentira.

E, portanto, parto do fim para o começo. Começo com a potência da mentira, com a potência do que Donald Trump denominou de fake News em um claro direcionamento à descredibilização do campo jornalístico, mas que se tornou uma nomenclatura popular e que vem sendo aplicada a muitos e muitos contextos e narrativas.

Então, se a hipérbole verdadeira usada por Trump  na década de 1980, quando já descartava a importância dos fatos e destacava a importância da onda social que uma determinada narrativa pode alcançar e os demais  neologismos cunhados por ele, possibilitaram a viabilidade de construção de uma realidade paralela (composta de verdades alternativas) que se estabeleceu de modo mais livre e completamente despreocupada com o confronto com os fatos, somente nas últimas décadas;  por outro lado, a desinformação no ambiente jornalístico é bem mais antiga e remonta aos primórdios de formação do campo jornalístico que como nos diz Bourdieu nasceu no encontro entre o news e o comments,  no raiar do jornalismo moderno quando seus princípios éticos foram construídos tendo a cientificidade e a veracidade como foco, o que deu origem a um ethos social diferenciado, cujos princípios direcionavam a prática jornalística para uma construção de uma determinada verdade social. Contudo, há que se ponderar, que desde suas raízes, o jornalismo foi confrontado com seus limites nesse processo asséptico de construção, para alguns, ou de mediação de realidades, para outros. Mas não somente confrontado, o jornalismo foi explorado por zonas de poder que cientes da potência do campo jornalístico frente ao ambiente social, trataram de utilizar suas páginas, antes impressas, para trazer não apenas versões de verdades, mas mentiras e manipulações diversas. O jornalismo praticado na primeira guerra, por exemplo, tanto na Inglaterra, França, Alemanha e Brasil, sobre os quais já nos debruçamos em algumas pesquisas, é recheado de peças de desinformação.

Nesse contexto, é possível pensar em uma consciência histórica que acione para o campo jornalístico uma suspeição que nasce junto com o próprio campo. A credibilidade forjada em um contexto de modernidade pujante e mercadológico através de métodos, técnicas e práticas de construção de versões de verdade, foi desvelada e a suspeição  do jornalismo foi absorvida pelos negacionistas e pelos mal intencionados na política, na religião e na ciência, por exemplo.

O historiador Robert Proctor em seu livro Agnotologia (2008) nos fala dos mercadores da mentira (cientistas cooptados pela indústria do tabaco) que teriam criado um manual de como confrontar as verdades factuais e científicas e que para tanto, necessitariam somente utilizar o mesmo princípio utilizado por Descartes em seu cogito (a dúvida), a dúvida que movimenta as inquietações na ciência e que leva a investigações em busca de respostas. A dúvida deveria, portanto, ser plantada através de narrativas que confrontassem a história, a ciência, o jornalismo e que pudessem alcançar o processo educacional, com versões de realidades paralelas.

Logo a suspeição do jornalismo que já vinha de longe encontra-se hoje,  potencializada, assim como, a dúvida levantada em todas as áreas que hoje atingem os diversos movimentos negacionistas, desde o terraplanismo ( pasmem: no Brasil 11 milhões de pessoas acreditam que a terra é planta), o movimento antivacina que somente nos Estados possui uma lucratividade anual de cerca de 36 milhões de dólares (segundo pesquisa Center for Countering Digital Hate (Centro de Combate ao ódio digital)), o negacionismo histórico em relação ao Soah, o Holocausto, a ditadura civil-militar no Brasil, dentre outras temáticas alvo da cadeia produtiva da desinformação e que compõe o denominado ecossistema.

Então, o jornalismo não é um lugar de ataque privilegiado, mas tanto quanto a ciência e a história possuía e ainda possui, um lugar destacado de fala no contexto social, motivo pelo qual continua como alvo.

Dito isto, vale ponderar, que diferentemente do passado ao qual nos referimos, a desinformação hoje, não é tão simples e possui dimensões complexas (sem querer aqui minimizar as consequências da desinformação para cada sociedade em suas contextualidades e temporalidades).

Mas hoje, o fato é que de um lado, as narrativas com desinformação possuem uma potência de fruição/circulação 70% maior do que uma informação, de acordo com uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachussetts- IMT, que também revela que uma desinformação pode alcançar organicamente nas redes sociais cerca de 100 mil pessoas, enquanto uma informação, sem impulsionamento chega a alcançar somente 1 mil pessoas.

Em outro viés, é preciso destacar que a desinformação extrapola a simples fake News e se coloca como um produto híbrido que mescla morfologicamente na composição das narrativas: fatos, mentiras, descontextualizações temporais e espaciais.  Há ainda uma outra dimensão a ser posta aqui, adotada por pesquisadores britânicos como Wardle e Derkashian que trabalham com o caos informativo conformado pela intencionalidade do autor da desinformação, onde de um lado estaria a desinformation, a desinformação intencional criada com o intuito de confundir, provocar dúvidas ou certezas, alavancar discurso de ódio etc., em prol de  uma causa ou de uma fraude em diversos sentidos, de outro, encontra-se  a misinformation que seria uma desinformação não intencional, mas que terminaria provocando mal entendidos no tecido social, e, por último, a mal information que seria uma informação factual descontextualizada de alguma forma com a intenção de desinformar.

Não temos espaço aqui para abordar todas as dimensões do fenômeno da desinformação que trabalhamos na palestra mencionada no início deste artigo e que entram pelo modelo de negócios das big Techs, abrangem o pujante e lucrativo mercado da construção da ignorância e passam pelas tensionalidades entre os regimes de verdade, mas existe luz no horizonte de expectativas a partir das diversas formas de combate à desinformação que estão em curso no Brasil e no mundo e a boa notícia fica por conta de um possível despertar da população brasileira, visto que o último Digital News Report 2021 nos diz que 82% dos brasileiros estão preocupados com a desinformação.

Equipe NUJOC