Desinfopandemia: a pandemia de informações falsas

 Desinfopandemia: a pandemia de informações falsas

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO em parceria com o International Center For Journalists – ICFJ publicou recentemente uma pesquisa que teve como foco principal a identificação dos fluxos de desinformação que circulam pelas redes sociais e que tem caracterizado o termo  desinfopandemia, cunhado pela UNESCO e cuja conceituação é bem clara: “desinformação básica sobre a COVID 19”.


O estudo que encontra-se disponível aqui é assinado pelas pesquisadoras Julia Posetti, diretora de pesquisa do ICFJ e Pesquisadora sênior do Instituto de Liberdade de Mídia da Universidade de Sheffield (CFOM) e Universidade de Oxford e, Kalina Bontcheva também pesquisadora do ICFJ e do Instituto de Liberdade de Mídia da Universidade de Sheffield.

O documento final tem como título Desinfopandemic: deciphering COVID 19 desinformation e logo no início deixa claro que o conceitode desinformação ali adotado se refere a conteúdos falsos com impactos potencialmente negativos e que podem acarretar em consequências fatais durante a pandemia.

As pesquisadoras são enfáticas ao afirmar que a intenção de um determinado agente ao produzir conteúdos de falsos tratamentos ou curas por razões ideológicas ou de lucro, é um exemplo de desinformação que no coletivo das  fakes news  que circulam em todo o mundo compõem a atual desinfopandemia.

Um dos principais temas de fabricação de informações falsas é a própria origem da doença, o que tem incentivado inúmeras teorias da conspiração que por sua vez, são o pontapé para produtos narrativos de diversas naturezas que possuem como centro a implicação de diversos autores e a imputação da culpa pelo que vivenciamos a determinadas comunidades.

O estudo alerta  para o direito ao acesso à informação de qualidade e destaca que “É direito de todas as pessoas buscar, receber e transmitir informação. A UNESCO e seus parceiros trabalham para proteger e reforçar esse direito:

  • Combater a contaminação da desinformação;
  • Apoiar jornalismo independente e de qualidade;
  • Capacitar as pessoas com mídia e informação;
  • Assistir os Estados Membros na reunião internacional com normas sobre liberdade de expressão.

Todas as quatro linhas de ação são essenciais para o direito à saúde […]”.

A pesquisa divide-se em duas partes. Na primeira foram identificados os principais
temas de produção de conteúdos falsos e concernentes à pandemia da COVID 19 e na segunda, o foco volta-se para os métodos de respostas contra a desinfopandemia.

Na primeira parte, as autoras enfatizam que as motivações para a prática de produção de informações falsas possuem naturezas diversas.

Podem ter como ponto motivador de criação o lucro a partir da circulação e venda das informações potencializadas pelos impulsionamentos das redes sociais, ou, podem possuir cunho ideológico e servir para marcar vantagem política pontual, ou ainda para minar a confiança em determinada política de saúde, colocar a culpa pelos erros na condução do processo de prevenção em outros personagens públicos e instituições,  polarizar a opinião da sociedade e, principalmente, minar as respostas coletivas à pandemia vigente.

Para as pesquisadoras os agentes do mercado da desinformação se utilizaram de modalidades narrativas objetivando contaminar a compreensão do público sobre o vírus, a doença e os efeitos.  “A desinformação aproveitou uma ampla variedade de formatos. Muitos foram aprimorados no contexto de campanhas antivacinação e desinformação política”. 

Em geral os fabricadores de informações falsas costumam concentrar o foco das narrativas em crenças e emoção, afastando a razão e os fatos. Os preconceitos são ativados, a polarização política e a identidade, entram como vetores paralelos e são trabalhados em meio a uma total ausência de ética, com boa dose de cinismo que procura seduzir e manipular indivíduos que tenham em seu âmago valores similares, porém silenciados por muito tempo.

As narrativas partem de uma simples identificação autonomeada, mas raramente passível de comprovação e procuram ativar os sentimentos mais naturalizados para ir de encontro à credulidade da audiência, procurando contextualizar a narrativa dentro da complexidade do momento, para a grande maioria da população mundial, incompreensível.

Dizem as autoras “A contaminação se espalha em texto, imagens, vídeos e som”. Os principais tipos de narrativas de desinformação localizados pelas pesquisadores foram:

1. Narrativa emotiva com construções e memes. Declarações falsas e textuais, narrativas que muitas vezes misturam fortes emoçõeslinguagem, mentiras e / ou informações incompletas, e opiniões pessoais, juntamente com elementos de verdade. Esses formatos são particularmente difíceis de descobrir em aplicativos de mensagens fechados.

2. Sites fabricados e identidades autoritárias – Isso inclui fontes falsas, conjuntos de dados poluídos e sites falsos do governo ou da empresa, sites publicados aparentemente deinformações no gênero de notícia.

3. Fraudes intencionais em vídeos e imagens: estes são usados para criar confusão e desconfiança generalizada e / ou evocar forte emoções através de memes virais ou histórias falsas.

 4. Infiltrados para a construção da desinformação e campanhas orquestradas. Estes visam: semear discórdia em comunidades; promover o nacionalismo e agendas geopolíticas; coleta ilícita de dados pessoais de saúde; ou monetário ganhar com spam e anúncios para curas falsas. Esses formatos também podem incluir amplificação e antagonismo por bots e trolls como parte de campanhas de desinformação organizadas.

As pesquisadoras elencam ainda os nove temas-chave das fake news de maior
repercussão:

  1. Origem do corona vírus, como já dito acima; 
  2. Estatísticas falsas e enganosas;
  3. Impactos econômicos;
  4. Narrativas para descredibilizar jornalistas, canais e agências de notícias;
  5. Ciência: sintomas diagnóstico e tratamento da COVID 19;
  6. Impactos na sociedade e no meio-ambiente;
  7. Politização;
  8. Conteúdo direcionado a ganho financeiro fraudulento e;
  9. Celebridades desinformadas.

Na segunda parte da pesquisa são apontados os 10 métodos principais de combate à desinfopandemia distribuídos em quatro grandes categorias, a saber:

  1. Identificação da informação falsa através de um rígido monitoramento e checagem dos fatos para elaboração de contranarrativas;
  2. Produtores e distribuidores de narrativas proativas, com respostas políticas e campanhas nacionais e internacionais de combate à desinfopandemia e pandemia da COVID 19;
  3. Produção e distribuição responsáveis de narrativas com uso racional do processo
    econômico e dos algoritmos de forma consciente e socialmente responsável;
  4. Suporte ao público-alvo da desinformação com respostas éticas, educação responsável e empoderamento consciente.

Equipe NUJOC

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