Janaina Paschoal faz leitura enviesada de comunicado da Anvisa para questionar eficácia das vacinas em adolescentes

 Janaina Paschoal faz leitura enviesada de comunicado da Anvisa para questionar eficácia das vacinas em adolescentes

Depoimento, de caráter enganoso, foi repostado pela deputada federal Bia Kicis, que também questiona a eficácia dos imunizantes

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) questionou em vídeo de rede social os efeitos colaterais da vacinação em adolescentes, apontando risco cardíaco. O depoimento foi repostado pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) no Instagram há duas semanas. A mensagem chegou ao NUJOC pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Fundação Oswaldo Cruz, para checagem.

No vídeo, com cerca de dois minutos de duração, Janaina Paschoal lê o comunicado 07/2021 da Anvisa, publicado em 02 de julho: “Casos de miocardite e pericardite têm sido reportados em outras partes do mundo, após vacinação com imunizantes contra a Covid-19 com mRNA, com os da Pfizer e Moderna. […] Análise do FDA sugere riscos aumentados de ocorrência de miocardite e pericardite, particularmente após a segunda dose das vacinas e com início dos sintomas alguns dias após a vacinação. A identificação precoce do quadro e implementação de terapia adequada são aspectos fundamentais para uma melhor evolução clínica”.

A mensagem lida pela deputada é verdadeira. De fato, a Anvisa divulgou comunicado no dia 02 de julho deste ano, alertando sobre possíveis riscos de complicações cardíacas em adolescentes. A íntegra do comunicado pode ser acessada aqui. Ele afirma que houve relatos pelo mundo de reações em adolescentes depois da segunda dose das vacinas com RNA mensageiro, como é o caso da vacina da Pfizer. Todavia, o comunicado não aponta nenhum caso no Brasil até aquela data, e também mantém a indicação da Pfizer para a vacinação no país.

Janaína Paschoal: alerta em tom alarmista. Imagem: Captura de tela/Instagram

Leitura seletiva – Janaina Paschoal lê os três parágrafos que relatam adversidade, mas não menciona o último deles, que está grifado em destaque, e que diz, textualmente: “A Anvisa mantém a recomendação de continuidade da vacinação com a vacina da Wyeth/Pfizer dentro das indicações descritas em bula, uma vez que, até o momento, os benefícios superam os riscos”.

O texto lido pela deputada: leitura seletiva. Fonte: Captura de tela do Comunicado 07/2021, da Anvisa

Outro trecho, na página 2, também em destaque, é deixado de lado na leitura da deputada: “No Brasil, até o momento, a Anvisa não recebeu relatos de miocardite ou pericardite após a vacinação, o que indica a necessidade de uma maior sensibilização por parte de serviços e profissionais de saúde, para o adequado diagnóstico, tratamento e notificação dos casos”.

Outro trecho ignorado pela deputada: viés. Fonte: Captura de tela do Comunicado 07/2021, da Anvisa

No início de setembro, a morte de uma adolescente em São Bernardo do Campo, em São Paulo, foi motivo de acusações por parte do movimento antivacina. No entanto, a investigação do óbito provou que ele não tinha relação com a imunização, como você pode acompanhar na checagem do projeto Comprova publicada na Folha de S.Paulo, que você confere aqui.

Reclamação – A deputada Janaina Paschoal finaliza seu depoimento enfatizando que não é contra vacinas e que seu objetivo é esclarecer a população. Ela conclui: “Infelizmente […] qualquer pessoa que ouse tocar nesse assunto pra trazer informação pra população, não pra falar contra a vacinação, mas pra trazer informação, é acusada de espalhadora de fake news”.

Os números sobre a Covid no país mostram que os grandes propagadores de desinformação são justamente as figuras que detêm poder, como políticos e personalidades do showbiz, o que talvez explique a desconfiança crescente em relação a eles. Nesta matéria aqui, você confere alguns dos políticos que foram apurados na CPI da Covid como grandes disseminadores de fake news no Brasil. A deputada federal Bia Kicis, que repostou a mensagem de Janaina Paschoal, está na lista.

Concluindo, a informação sobre a nota da Anvisa é verdadeira, mas há ressalvas: além de não haver números que apontem casos de problemas cardiovasculares em adolescentes que tomaram a vacina da Pfizer no Brasil, também não há relevância, em nível mundial, no número de óbitos de adolescentes pós-imunização, a ponto de as principais agências de saúde recomendarem a imunização em adolescentes. As vantagens da imunização superam largamente as desvantagens, como afirma a nota da Anvisa.

O NUJOC já checou diversas declarações de políticos sobre a pandemia da Covid-19. Nesta aqui, o deputado federal Osmar Terra propaga desinformações sobre números de mortos pela Covid-19 no Brasil. Neste link aqui, você pode acessar diversas checagens que fizemos sobre as declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre a pandemia, todas falsas ou que induzem a erro.

Equipe NUJOC