Médico no Amazonas que realizou testes com cloroquina é culpado pelos óbitos em ensaio clínico?

 Médico no Amazonas que realizou testes com cloroquina é culpado pelos óbitos em ensaio clínico?

Esta matéria é uma renovação a respeito de um conteúdo já verificado por nós. Veja aqui.

Médico que realizou testes no Amazonas com cloroquina é acusado de matar pacientes. Porém, entidades nacionais de saúde e pesquisa garantem que todos protocolos éticos seguiram à risca as recomendações, sendo todas as etapas previamente aprovadas, mediante assinatura de termos de consentimento.

Nossa parceria com a aplicativo @eufiscalizo consiste em receber denúncias. A respeito da pauta sobre o médico pesquisador Marcus Vinícius Guimarães Lacerda, que foi acusado de matar 11 pacientes por superdosagem de cloroquina, pudemos verificar que tais acusações são inconsistentes.

Entenda o caso

Em março deste ano, ensaios clínicos com a cloroquina foram realizados no estado do Amazonas com pacientes em estado grave da doença.

O estudo, denominado Clorocovid 19, tinha supervisão do médico Marcus Vinícius Guimarães Lacerda e visava analisar como o organismo de pacientes com Síndrome respiratória aguda grave diagnosticados com Covid-19 reagiam a algumas dosagens de cloroquina. O estudo contava com uma equipe supervisionada pelo médico, que após alguns óbitos passou a ser acusado e responsabilizado pelas mortes.

Em nota, a Fiocruz explica: “A pesquisa foi estruturada como um estudo de fase II, ou seja, com o foco na análise de diferentes dosagens e na segurança dos pacientes, incluindo apenas aqueles com quadro de SRAG e suspeita (e posterior confirmação laboratorial) de Covid-19. A análise contou com 81 indivíduos internados no Hospital Delphina Aziz, referência para Covid-19 no Amazonas. Os responsáveis pelo estudo também levaram em consideração outras questões, como a de que doses mais altas têm comprovadamente maior atividade antiviral em laboratório e, assim, podem inibir o novo coronavírus.”

Durante a pesquisa alguns pacientes vieram a óbito e o médico responsável e sua equipe foram responsabilizados pelo ocorrido. Acusações foram feitas na mídia e passaram a circular nas redes sociais, algumas ligadas  a ideologias políticas e que até escapavam ao escopo da situação. Uma delas fazia referência a filiações partidárias, e foram negadas pelo médico.

Entenda o estudo

Os participantes foram divididos em dois grupos, que receberam duas dosagens distintas de cloroquina no tratamento: uma dose alta (600mg duas vezes ao dia, por dez dias) e outra mais baixa (450 mg duas vezes ao dia no primeiro dia, e uma vez ao dia por mais quatro dias). Os pacientes foram acompanhados pela equipe de pesquisa por 28 dias após o início da medicação.

A postagem acusatória: entidades saíram em defesa do médico. Imagem: Reprodução

As primeiras conclusões do estudo apontaram que pacientes graves com Covid-19 não devem usar a dose recomendada pelo Consenso de Tratamento Chinês. Até o momento, nenhum outro estudo no mundo apresentou evidências sobre esse tipo de uso, pois não haviam sido realizadas adequadamente avaliações de segurança, como eletrocardiogramas diários, o que foi feito em Manaus, sob assessoria de cardiologistas experientes.

O médico foi acusado de má conduta ética durante o estudo. Entretanto, no próprio site da Fiocruz e também do Conselho Nacional de Saúde constam pareceres de que todos os protocolos seguiram à risca as recomendações do Comitê de Ética.

No site da Fiocruz, é possível ler na íntegra toda a condução e resultados da pesquisa. E sobre o ponto da ética médica em questão pode-se ler a seguinte resolução:

Ética e transparência no estudo

“A pesquisa foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), sob CAAE 30504220.5.0000.0005. Integram o comitê, médicos especialistas, brasileiros e estrangeiros, que passaram a acompanhar diariamente os resultados. Um comitê de acompanhamento e segurança independente foi montado.

Assim que foram observadas as primeiras mortes de pacientes em uso de qualquer uma das doses de cloroquina, a Conep prontamente solicitou a análise dos dados: 11 pessoas (de ambos os grupos) haviam morrido por Covid-19, em uma média semelhante a mundial. Os indivíduos eram em maioria idosos, mostrando o mesmo perfil de pacientes graves em todo o mundo. Também se verificou que havia tendência de mais efeitos colaterais nos pacientes em uso da dose maior. Todos os pacientes do CloroCovid-19 recebem esclarecimento prévio sobre o objetivo da pesquisa e assinaram Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), bem como estão cientes que poderão tomar cloroquina ou não.

A alta dose foi imediatamente suspensa e todos os participantes passaram a usar a dose mais baixa. A Conep foi comunicada oficialmente por meio da Plataforma Brasil, e os dados, para maior transparência e visibilidade internacional, foram divulgados no site MedRxiv, para garantir a oportuna transparência e visibilidade internacional dos resultados até a devida revisão por pares científicos.”

Testes e falhas

Para que possamos confiar na ciência e desfrutar de seus avanços, é preciso um longo caminho de estudos, testes e consequentemente falhas. Sim, falhas, pois até a ciência está sujeita a equívocos e conclusões imprecisas no que diz respeito a seus progressos.

O Conselho Nacional de Saúde (CNS), por meio da Comissão Intersetorial de Ciência, Tecnologia e Assistência Farmacêutica (Cictaf), também veio a público manifestar solidariedade aos pesquisadores do estudo em seu site oficial: “Os profissionais, guiados pela ética e responsabilidade social, recentemente foram atacados de forma injusta nas redes sociais, após a divulgação de resultados preliminares com o uso da cloroquina em pacientes graves com a Covid-19”.

Também posicionou-se em defesa do médico, por meio de nota de repúdio, a Sociedade Brasileira de Imunologia -SBI, em seu site oficial. Em um trecho a SBI afirma que os ataques sofridos pelo Dr. Guimarães de Lacerda e seu grupo são infundados e fruto de intenções outras que não sejam a cura e o desenvolvimento científico. A pesquisa clínica é um passo necessário nos procedimentos que permitem que fármacos, ou quaisquer outras soluções de saúde, venham a ser utilizados pela população. Absolutamente todos, repetimos, todos, produtos voltados ao tratamento de pessoas passam por testes clínicos que são devidamente autorizados por aqueles que deles participam (ou por seus familiares, quando a convalescência retira o poder de decisão por já estarem em risco iminente de morte).

Situação complexa

A nova situação que se instaurou no mundo, de pandemia, em que cientistas correm contra o tempo na tentativa para descobrir uma vacina ou tratamento com medicamentos que sejam eficientes contra as infecções ocasionadas pela Covid-19, torna-se cada mais complexa.

Está nas mãos de nossos cientistas e pesquisadores a árdua tarefa da descoberta pelo medicamento que nos imunizará contra todos os males ocasionados pelo novo coronavírus. A dor da perda de um ente querido, certamente, nos causa revolta e indignação. Entretanto, falsas acusações a respeito dos que estão na linha de frente buscando evoluir nos quadros médicos, certamente, não favorece o delicado e tortuoso quadro de pandemia no qual nos encontramos.

E, a respeito de medidas jurídicas, a não ser que algum trâmite legal esteja correndo em situação de sigilo, não encontrarmos nenhuma denúncia contra o médico no site do Ministério Público do Estado do Amazonas.

Equipe NUJOC

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